Super El Niño: definição, causas e a magnitude sem precedentes
O fenômeno conhecido como El Niño se caracteriza por um aquecimento anômalo da camada superficial do oceano Pacífico equatorial, que persiste por meses consecutivos e rompe o padrão habitual dos ventos alísios. Tradicionalmente, a classificação de um evento como El Niño requer que a temperatura da superfície do mar (TSM) esteja pelo menos 0,5 °C acima da média histórica ao longo de um corredor que se estende de 120 ° W a 80 ° W.
Em 2026, porém, as medições realizadas pelos modelos climáticos da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) e pelo observatório europeu Copernicus revelam anomalias que ultrapassam 2 °C no leste do Pacífico, região que banha diretamente a costa sul‑americana. O Copernicus ainda registra que a temperatura média dos oceanos globais atingiu 20,96 °C, estabelecendo a marca mais alta dos últimos cinquenta anos.
Esses números não são meramente estatísticos; eles traduzem a convergência de dois “motores termodinâmicos” – o aquecimento natural do El Niño e o aquecimento global provocado pelas emissões de gases de efeito estufa. O climatologista José Marengo, coordenador‑geral de Pesquisa e Desenvolvimento do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), sintetiza a situação ao afirmar:
> “Agora, além do aquecimento característico do Pacífico, temos o pano de fundo do aquecimento global. É a soma de dois motores termodinâmicos potentes. Num planeta mais quente, a atmosfera armazena consideravelmente mais vapor de água. Quando essa energia se precipita, funciona exatamente como se estivessem jogando gasolina no fogo.”
A NOAA, ao analisar a série histórica de eventos desde 1950, calcula que há até 90 % de probabilidade de que o ciclo atual configure um “super El Niño”, um dos episódios mais intensos já catalogados. Essa avaliação coloca a comunidade meteorológica mundial em “alerta máximo”, pois a magnitude das anomalias térmicas supera, em muito, os parâmetros observados nos ciclos de 1982‑1983 e 1997‑1998, tradicionalmente considerados os mais devastadores do século XX.
Projeções climáticas para o Brasil: secas, calor extremo e chuvas intensas
A extensão geográfica do Brasil faz com que o país experimente impactos climáticos divergentes quando um super El Niño se instala. Os modelos da NOAA e do Copernicus, alimentados por cenários de emissões atuais, apontam para duas tendências opostas, mas igualmente críticas.
Nas regiões Norte e Nordeste, a elevação da temperatura do Pacífico reduz a convecção de umidade sobre a bacia amazônica, desencadeando déficits pluviométricos que se traduzem em secas severas. As projeções indicam que a precipitação média anual poderá cair até 30 % em alguns estados, elevando o risco de escassez hídrica, comprometendo a produção agrícola e intensificando a vulnerabilidade de populações que dependem de recursos de água de superfície.
Simultaneamente, a mesma elevação térmica aumenta a capacidade da atmosfera de reter vapor d’água, o que, ao encontrar condições de instabilidade, gera chuvas extremamente intensas. No Centro‑Sul, os modelos apontam para tempestades torrenciais concentradas, com precipitações que podem ultrapassar 200 mm em 24 horas em áreas metropolitanas como São Paulo, Rio de Janeiro e o interior de Minas Gerais.
O Cemaden, por meio de seus climatologistas, destaca que esse duplo efeito – calor extremo aliado a precipitações intensas – cria um cenário de “gasolina no fogo”. A atmosfera mais quente não só aumenta a energia disponível para as tempestades, como também eleva o teor de umidade das massas de ar, potencializando a letalidade de enxurradas e de deslizamentos de encostas.
Essas projeções, embora alarmantes, são acompanhadas de dados quantitativos que reforçam a necessidade de respostas imediatas: a NOAA estima que a probabilidade de eventos de precipitação acima do p99 (percentil 99) nas áreas do Centro‑Sul seja superior a 70 %, enquanto a probabilidade de ondas de calor com temperaturas máximas acima de 40 °C nas capitais do Nordeste ultrapassa 80 % nos meses de dezembro a fevereiro.
Vulnerabilidade urbana e lições das grandes inundações recentes
A história recente do Brasil oferece um panorama doloroso sobre como a vulnerabilidade urbana pode transformar um evento climático em desastre humanitário. Em maio de 2024, as enchentes históricas que submergiram Porto Alegre e dezenas de municípios gaúchos atingiram mais de 5,5 milhões de cidadãos, revelando fragilidades estruturais que ainda persistem.
Os alagamentos de 2024 expuseram três pontos críticos:
1. Sistemas de diques e comportas fluviais insuficientes – muitas estruturas, projetadas na década de 1970, não suportaram a pressão hidráulica gerada pelos volumes de água que excederam em até 150 % a capacidade de contenção prevista. 2. Ocupação desordenada de várzeas fluviais – áreas tradicionalmente consideradas de risco foram ocupadas por moradias informais, sem planejamento de evacuação ou de mitigação de risco, ampliando o número de desabrigados. 3. Impermeabilização excessiva do solo e microdrenagem precária – a expansão urbana sem a devida implantação de sistemas de drenagem canalizada resultou em escoamento superficial rápido, impedindo a infiltração natural e aumentando a velocidade das enxurradas.
Especialistas financiados pela FAPESP reforçam que o fenômeno meteorológico – por mais intenso que seja – não é o único determinante do desastre. O grau de vulnerabilidade territorial, medido pela combinação de ocupação de áreas de risco, qualidade da infraestrutura de drenagem e capacidade de resposta institucional, define a extensão dos prejuízos humanos e financeiros.
A análise da FAPESP destaca ainda que, se as cidades adotarem práticas de planejamento baseadas em risco – como a restrição de novas construções em zonas inundáveis e a retrofitting de sistemas de drenagem – seria possível reduzir em até 40 % os impactos de eventos semelhantes.
Estratégias de adaptação e governança metropolitana: da mitigação à ação forçada
Diante da convergência de um super El Niño e das vulnerabilidades já identificadas, a comunidade científica e os centros de pesquisa têm elaborado matrizes de risco detalhadas para orientar prefeituras, governos estaduais e o poder público federal. Uma das iniciativas mais abrangentes vem do World Resources Institute (WRI) Brasil, que desenvolveu uma análise multissetorial focada em quatro pilares essenciais:
- •Orçamento municipal dedicado à adaptação climática – recomenda a criação de linhas de crédito específicas, equivalentes a 0,5 % do PIB municipal, para financiar obras de infraestrutura resiliente.
- •Protocolos automáticos de evacuação precoce – baseados em sensores de nível de água e em sistemas de alerta via SMS, com tempo de resposta inferior a 30 minutos entre a detecção de risco e a comunicação à população.
- •Cidades‑esponja – implantação de parques alagáveis, áreas verdes que absorvem o excesso de água, e de pavimentos permeáveis em vias urbanas, reduzindo o escoamento superficial em até 60 %.
- •Remoção preventiva de moradias em áreas de risco geológico – programas de reassentamento que priorizam famílias de baixa renda, com indenizações justas e oferta de habitação em zonas seguras.
Os relatórios da FAPESP, produzidos por equipes multidisciplinares que incluem engenheiros civis, geógrafos e economistas, corroboram a necessidade de governança metropolitana integrada. Eles apontam que a falta de coordenação entre municípios vizinhos gera “efeitos de borda” – por exemplo, a construção de um sistema de drenagem em uma cidade pode transferir o risco de inundação para a vizinha, se não houver planejamento conjunto.
Além das medidas de infraestrutura, os documentos enfatizam a importância de capacitação institucional: treinamento de agentes de defesa civil, atualização de planos de contingência e a criação de centros de monitoramento em tempo real que integrem dados da NOAA, Copernicus e das estações meteorológicas nacionais.
Desafios institucionais e perspectivas futuras
A magnitude do super El Niño impõe um corte de realidade nas políticas públicas brasileiras. O diplomata André Corrêa do Lago, ao encerrar a conferência do clima que reuniu representantes de governos, ONGs e academia, sintetizou a mudança de paradigma ao afirmar:
> “A adaptação climática deixou de ser uma alternativa secundária para se tornar o eixo central da sobrevivência das populações urbanas.”
Essa declaração reflete a percepção de que a mitigação das emissões, embora essencial a longo prazo, não é suficiente para proteger as cidades dos impactos imediatos de eventos extremos. O desafio institucional reside em transformar planos de ação em orçamentos concretos, em garantir que as prefeituras disponham de recursos técnicos e financeiros, e em criar marcos regulatórios que obriguem a adoção de práticas resilientes.
A FAPESP, como principal financiadora de pesquisas no país, tem intensificado o apoio a projetos que investigam modelos de governança climática, tecnologias de drenagem inteligente e sistemas de alerta precoce baseados em inteligência artificial. Contudo, a efetividade desses projetos depende da transferência de conhecimento para os gestores municipais, que muitas vezes carecem de capacitação e de acesso a dados em tempo real.
Em síntese, o cenário delineado pelos modelos da NOAA e do Copernicus indica que o Brasil está à beira de um período de extremos climáticos sem precedentes. As regiões Norte e Nordeste enfrentarão secas prolongadas e ondas de calor que ameaçam a segurança alimentar e hídrica, enquanto o Centro‑Sul deverá lidar com tempestades torrenciais capazes de sobrecarregar sistemas de drenagem ainda frágeis.
A resposta exigida é multidimensional: requer reformulação drástica dos planos de resiliência urbana, investimento imediato em infraestrutura de drenagem e em políticas de reassentamento, além de coordenação intermunicipal que evite a transferência de risco de um território para outro. Somente com a convergência de ciência, política e ação prática será possível transformar o “gasolina no fogo” em um cenário controlado, minimizando perdas humanas e econômicas e preparando o Brasil para viver – e prosperar – em um clima cada vez mais volátil.




