Ayacucho como palco histórico da 21ª Bienal Nacional de Arquitetura

A escolha de Ayacucho como sede da XXI Bienal Nacional de Arquitetura do Peru não é aleatória. A cidade, reconhecida por seu conjunto arquitetônico colonial e por sua localização estratégica entre os vales andinos, oferece um cenário que conjuga história, cultura e vulnerabilidade climática. O evento, programado para ocorrer entre 9 e 14 de novembro de 2026, será realizado em locais que permitem a demonstração prática de intervenções urbanas, ao mesmo tempo em que reforçam a identidade histórica da região.

A decisão de sediar a Bienal em Ayacucho reforça a intenção de transformar a cidade em um laboratório vivo, onde projetos de reordenamento territorial podem ser testados em tempo real. Essa abordagem prática visa criar um legado duradouro, que vá além da mera exposição de maquetes e projetos conceituais, inserindo-os no tecido urbano de uma cidade que já enfrenta desafios recorrentes de alagamentos e deslizamentos de terra.

A presença de mais de 2.000 participantes — entre eles arquitetos, urbanistas, pesquisadores, acadêmicos e especialistas de diferentes países — confere à Bienal um caráter verdadeiramente internacional. Essa concentração de saberes e experiências permite a troca de práticas bem‑sucedidas em contextos semelhantes, como as intervenções realizadas em outras regiões andinas ou costeiras da América Latina.

Foco na prevenção de riscos e adaptação ao El Niño

O eixo temático central da Bienal — prevenção de riscos de desastres e adaptação territorial ao El Niño — reflete a crescente preocupação do Peru com os impactos climáticos na bacia do Pacífico e nos vales andinos. O fenômeno El Niño, ao intensificar chuvas e elevar o nível do mar, tem provocado eventos extremos que afetam diretamente a infraestrutura urbana, a segurança das populações e a economia local.

Durante a abertura, a decana do Colégio de Arquitetos do Peru (CAP), Lucía Ledesma Martínez, enfatizou que “a magnitude crescente dos impactos climáticos sobre a bacia do Pacífico e os vales andinos exige uma resposta estrutural imediata do corpo técnico de engenharia e urbanismo”. Essa declaração sintetiza a urgência de se repensar o desenho urbano, incorporando soluções que reduzam a vulnerabilidade das comunidades.

A programação da Bienal inclui painéis técnicos que abordarão, entre outros temas, a concepção de redes de drenagem pluvial capazes de absorver volumes de água superiores aos registrados historicamente, a contenção de encostas por meio de técnicas de estabilização e vegetação, e a definição de critérios técnicos rigorosos para o traslado e reassentamento seguro de famílias que habitam áreas de risco não mitigável. Cada proposta será analisada sob a ótica da viabilidade econômica, da sustentabilidade ambiental e da preservação cultural, buscando soluções que sejam ao mesmo tempo inovadoras e respeitosas das especificidades locais.

Parceria estratégica com o Indeci: consultoria técnica ao Estado

Um dos marcos institucionais da Bienal é o convênio estratégico de cooperação firmado entre o CAP e o Instituto Nacional de Defesa Civil (Indeci). Esse acordo institucionaliza o papel do Colégio como órgão consultivo técnico do governo peruano, especialmente nas áreas de reordenamento territorial e reassentamento.

Segundo explicou a decana Lucía Ledesma Martínez, “o Colégio de Arquitetos do Peru reforçará seu papel de órgão consultivo técnico do governo peruano por meio de um convênio estratégico de cooperação com o Instituto Nacional de Defesa Civil (Indeci)”. Essa frase evidencia a intenção de criar um canal permanente de comunicação entre a comunidade profissional de arquitetura e o aparato estatal, permitindo que as recomendações técnicas sejam incorporadas nas políticas públicas de forma ágil e eficaz.

A parceria prevê a elaboração conjunta de diretrizes normativas que orientem a construção de infraestruturas resilientes, a revisão de planos de uso e ocupação do solo, e a definição de protocolos de emergência para eventos climáticos extremos. Além disso, o Indeci contará com o apoio de especialistas do CAP para avaliar a vulnerabilidade de áreas urbanas, identificar zonas de risco e propor soluções de reassentamento que garantam a dignidade e a segurança das famílias deslocadas. Essa colaboração representa um avanço significativo na integração entre conhecimento técnico e ação governamental, potencializando a capacidade do Peru de enfrentar os desafios impostos pelo El Niño.

Premiações e o concurso nacional em oito categorias

Paralelamente aos debates técnicos, a Bienal promoverá um concurso nacional que reconhecerá as melhores iniciativas arquitetônicas e urbanísticas em oito categorias distintas. As categorias abrangem desde projetos executados de infraestrutura urbana e edificações sustentáveis, até teses de pesquisa acadêmica e iniciativas de restauração ambiental. Essa amplitude permite que tanto obras já concluídas quanto propostas teóricas sejam avaliadas, incentivando a criatividade e a inovação em diferentes estágios de desenvolvimento.

Em entrevista à Red de Comunicación Regional (RCR), Lucía Ledesma destacou que “a comissão julgadora avaliará tanto obras concluídas quanto propostas teóricas capazes de responder de forma inovadora à complexa diversidade geográfica, topográfica e climática das regiões peruanas”. Essa abordagem garante que a premiação não se limite a projetos já implementados, mas também reconheça ideias que, embora ainda em fase de concepção, apresentam potencial transformador para áreas vulneráveis.

Os jurados, compostos por profissionais de renome nacional e internacional, aplicarão critérios que consideram impacto social, eficiência ambiental, viabilidade econômica e respeito ao patrimônio cultural. Ao premiar projetos que atendam a esses parâmetros, a Bienal busca criar um repertório de boas práticas que possam ser replicadas em outras cidades peruanas e latino‑americanas, ampliando o alcance das soluções desenvolvidas durante o evento.

Prêmio Gaudí: centenário e novo marco para o patrimônio e a sustentabilidade

Um dos destaques mais simbólicos da 21ª edição da Bienal é a criação do “Prêmio Gaudí”, instituído em comemoração ao centenário de falecimento do mestre catalão Antoni Gaudí. A iniciativa pretende celebrar a linguagem orgânica característica das obras gaudínicas e inspirar arquitetos a integrar essa sensibilidade estética com modelos de desenvolvimento sustentável.

A premiação tem como objetivo fomentar projetos que conciliem a preservação rigorosa do patrimônio histórico com turismo responsável e dinamismo econômico local. Nesse sentido, a decana citou como exemplo bem‑sucedido a experiência de conservação patrimonial de Antigua Guatemala, ressaltando que “Ayacucho se posiciona como referência latino‑americana em patrimônio edificado e sustentabilidade”. Essa analogia reforça a ambição de transformar Ayacucho em um polo onde a história arquitetônica seja valorizada ao mesmo tempo em que se adotam práticas resilientes ao clima.

Ao premiar iniciativas que incorporem princípios gaudínicos — como a integração de formas naturais, o uso de materiais locais e a atenção ao contexto ambiental — o Prêmio Gaudí pretende criar um diálogo entre o legado histórico da arquitetura mundial e os desafios contemporâneos de adaptação ao clima. Essa proposta reforça a ideia de que a inovação arquitetônica pode ser simultaneamente estética, funcional e responsável, servindo de modelo para outras cidades que buscam equilibrar desenvolvimento urbano e conservação cultural.

A XXI Bienal Nacional de Arquitetura do Peru emerge, portanto, como um ponto de convergência entre conhecimento técnico, política pública e valorização do patrimônio. Ao reunir mais de dois mil profissionais, ao firmar parceria estratégica com o Indeci, ao lançar um concurso nacional em oito categorias e ao instituir o Prêmio Gaudí, o evento não apenas discute, mas também implementa caminhos concretos para a construção de um território peruano mais resiliente, seguro e culturalmente rico. O sucesso das iniciativas apresentadas em Ayacucho poderá servir de referência para toda a América Latina, demonstrando que a arquitetura, quando aliada à ciência e à governança, pode ser um agente decisivo na mitigação dos riscos climáticos e na promoção de um futuro urbano sustentável.